Na foto preto e branco guardada na minha caixa de papelão, puxo imagens da minha criança de mente barulhenta, semblante calmo e coraçãozinho inocente. Pureza, define a menina despojada, silenciosa, amorosa, sonhadora, dona de um sorriso lindo e cativante. Incrivelmente bondosa, amava gente idosa, deficientes e tinha muito respeito por pessoas com transtornos mentais. Acreditava no poder da lua, na cegonha que trazia o bebê pelo bico, no agouro da coruja, na aparição de almas e tinha medos gigantes à noite. Porém, gostava dos contos de fadas, das noites de fogueiras, das brincadeiras de rua, de cantar “0 trem das onze” de Adoniran Barbosa, das cantigas de roda, virar cambalhotas, brincar na beira do rio e de ir para a casa da vizinha da calçada alta que possuía a famosa bica boca de jacaré, o deleite da meninada nos dias de chuva. Amava olhar para o céu, encontrar bichinhos nas nuvens, contar as estrelas, ouvir as histórias mirabolantes e assustadoras do seu papai. Acreditava na existência do lobisomem, da mula sem cabeça, do saci pererê, do lobo mau, do chapeuzinho vermelho e do Papai Noel. Amava o sertão, o canto dos pássaros, o bem-te-vi, a rolinha fogo-apagou, o sabiá, o canário, a cabeça vermelha, o rouxinol e o exuberante beija-flor. Adorava andar descalça, correr pelo terreiro, tomar banho de chuva, de riacho e subir nas árvores do seu quintal. Por fim, vi a figura saltitante, sapeca, cabelos rebeldes, vestidinho de chita, tamancos de grega, corpo rechonchudo, rosto afilado, olhos verdes, sorriso aberto da criança mais feliz do mundo que se perpetuou na antiga e rasurada fotografia.