fatima fontenele lopes
Rascunhos da alma
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O JUAZEIRO DA MINHA INFÂNCIA

 

Na desolada estrada de terra, que cortava muitas regiões do Ceará, a sombra de um frondoso juazeiro servia de descanso para os caminhoneiros, no período invernoso. Exatamente, à margem daquela imponente árvore, sempre verde, indiferente ao sol causticante do verão, formavam-se muitos atoleiros, além das cheias de um riacho, em consequência das fortes chuvas em sua nascente, que impediam os caminhões carregados de mercadorias seguirem seu destino. A minha criança achava aquilo incrivelmente bonito, assistindo ao trabalho duro daqueles homens, unindo-se na busca de reverterem essa difícil situação. Buscavam pedras, galhos de plantas, toras de madeira e, muitas vezes, as varas da cerca que protegia o roçado de meu amado pai da invasão de animais, tudo para conter o barro movediço sob os pneus do sofrido caminhão. A retirada dessas madeiras deixava o meu pai muito chateado e bravo, pois gerava prejuízo ao seu plantio, cultivado à custa de muito sacrifício. E muitas histórias ali eram contadas, muitos risos e lamúrias dos motoristas, cansados dessa peleja insana de desatolar carros, vindos de várias regiões do Ceará e que eram seus meios de sobrevivência. Mas o Juazeiro, ali firme, potente, majestoso, mostrando as suas frutinhas amarelas, acolhia cada um deles, ano após ano. O riacho, indiferente aos transtornos que causava, descia roçado a dentro, com o seu barulho sinfônico, proporcionando deliciosos banhos em suas águas correntes e fazendo a algazarra e alegria da criançada. A noite escura, de nuvens carregadas, anunciava nova tempestade, obrigando os sofridos motoristas a buscarem abrigo nas casas de moradores da vizinhança, até cessar a cheia do riacho e o sol secar as lamas, permitindo que seus caminhões prosseguissem em seu trajeto. A saída desses fortes homens deixava um vazio em mim e no restante da meninada, mas não tardava a se repetir aquela cena, pois as chuvas logo voltavam e novos caminhoneiros ali estavam, repetindo a mesma façanha dos que partiram e nós, crianças e o velho Juazeiro acompanhando aquelas pelejas e sofrimentos desses bravos motoristas que atravessavam o meu querido sertão.

Maria de Fátima Fontenele Lopes
Enviado por Maria de Fátima Fontenele Lopes em 12/10/2025
Alterado em 12/10/2025
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