fatima fontenele lopes
Rascunhos da alma
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MESTRAS DA MINHA INFÂNCIA

 

Início do ano letivo, na pequena cidade, a menina foi matriculada pelo  seu papai, numa disputada escola primária, localizada em uma rua central, num casarão antigo, com mobiliários escolares rústicos, de madeira escura, com o verniz já desgastado pela ação do tempo. Para a menina tímida, não foi fácil adaptar-se ao novo ambiente escolar. com poucos assentos. De temperamento forte, de pouca conversa, olhar sério, hoje, se diria, estranha, pouco interagia com a classe. Mas, logo no amanhecer do dia, organizava sua humilde bolsa de plástico, contendo um caderno de papel pautado, um lápis preto, borracha, ponteira e uma lâmina de gilete. Com sua bolsa a tiracolo caminhava pelas longas calçadas de um trajeto distante para a sua tenra idade. Sempre atenta aos desníveis das calçadas e desviando de alguma poça dágua na rua de terra batida, causada pela chuva. Na sua inocência de criança buscava papéis de bombons e embalagens de chocolate para usar como toalhinhas na sua casinha de boneca. Sem acostumar-se ao cotidiano escolar, achava um jeitinho de desistir da sua obrigação de estudante, e tinha o apoio de sua genitora que não a obrigava a prosseguir, se não quer, não vai, dizia. E assim, sempre acontecia, pois gostava mesmo era de brincar, dar piruetas na areia, contar as perninhas da centopeia, desenterrar as minhocas e mexer com os caramujos na beira do rio. Estudar não era sua prioridade. Mas cresceu, fez oito anos e voltou para um colégio pequeno, dispondo somente de uma sala de aula, e logo aprendeu o ABC, ler e escrever. Professora humana, paciente, que a tratava como uma criança normal. Diariamente, seu pai lhe dava uma pratinha de mil réis para a simples merenda. Alfabetizada, mudou novamente para uma escola tradicional elogiada na cidade e de confiança dos pais, pela rigidez, responsabilidade e primoroso método de ensino. Um desafio, como enfrentar o novo ambiente escolar. Mas a menina foi desconfiada, encolhida nos cantos de parede, escolheu a dedo onde sentar-se, no meio de duas colegas com mais idade, altas, fortes, seu porto seguro, ficaria escondidinha, pensava. Mas felizmente nunca provou do castigo da Maria Bonita. Ano seguinte, promovida para a terceira série, matriculou-se no turno da noite formado por uma turma adulta, que não passava pelo crivo da palmatória. Mestra incrível, amiga, compreensiva, que, assim como sua mãe, entendeu a sua dificuldade, seus medos e a fez criar gosto pelas letras e números. Hoje, ela fala da incrível professora da terceira série, Vera Lúcia Fernandes, da equipe do saudoso Externato Nossa Senhora de Fátima em cujos bancos escolares passaram muitos alunos de todas as camadas sociais e hoje são cidadãos e cidadãs que exercem as mais dignificantes profissões. Gratidão é a palavra-chave por fazer parte dessa linda e significativa história. Obrigada, mestras da minha infância.

 

Revisor do texto:

Humberto Fontenele Lopes. 

 

Maria de Fátima Fontenele Lopes
Enviado por Maria de Fátima Fontenele Lopes em 24/10/2025
Alterado em 03/11/2025
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