A CALÇADA DA MINHA CASA
Hoje, folheando as páginas das minhas recordações, encontrei-me sentada naquele batente de dois degraus, que dava acesso à nossa velha casa, na rua Poty na cidade de Crateús-CE. Na calçada, numa cadeira de couro, estava o meu pai, observando o vai-e-vem dos vizinhos e de outros transeuntes. Podia-se dizer que ele era um curioso da rua, no bom sentido. Eu, ali, ficava ligada, sentindo de perto as suas investidas. E, repentinamente, surge, dobrando a esquina da direita, um animal de carga, o jumento, nosso irmão, carregando no lombo dois enormes caçuás, abarrotados de manga foice, produzida na região. Com passos lentos e trôpegos, curvado com o enorme peso da carga, e seu guia, sem dó, ainda chicoteava o sofrido e combalido animal. Pesaroso com o sofrimento do indefeso animal, meu pai indaga do homem perverso o valor de venda de toda a carga transportada. Após negociação, fecha a compra e pede a ele que desembarque toda a carga e a leve para um cômodo da casa. No semblante do inditoso animal, via-se o alívio e o ar de gratidão ao meu pai, por tê-lo livrado, naquela manhã, de tamanho sofrimento. Aquele gesto encheu meu inocente coração de orgulho, além da alegria dos muitos irmãos, que logo começavam a saborear e deleitar-se com a fartura da gostosa fruta. Em outra manhã, na mesma calçada e do mesmo batente, testemunhei a grosseria de um vizinho, que retornava de uma fracassada caçada de marrecas, durante toda a noite anterior, à beira do rio, que margeava o nosso quintal. Meu pai, informado pelo companheiro de caça do vizinho, soube que nenhum dos tiros que ele disparou acertou o alvo. Meu pai, então, sem a intenção de desfazer da sua habilidade de caçador, aproveitando a passagem dele, conduzindo sua espingarda de cartucho e seu surrado bornal de couro, vazio, indagou-lhe: amigo, soube que você errou todos os tiros, na caçada da noite de ontem? Irado com a pergunta, diz o vizinho: é verdade, mas se os tiros fossem em sua direção, eu teria acertado em cheio. Olhei para o meu pai, que ficou ruborizado de indignação com a tamanha ofensa, porquanto sempre foi respeitado e querido pelos moradores da rua, onde chegou em 1943. O homem seguiu sua trajetória, resmungando e apressado. A calçada da minha morada foi palco de muitas histórias, das quais eu participei e outras presenciei. No âmago da minha memória, guardo cada detalhe de histórias de assombração, de tantas brincadeiras, brigas de meninos, conversas jogadas fora, uma verdadeira e rica enciclopédia de conhecimentos, de amizades , de namoros; e com meu pai olhando pela janela com um ranço na garganta, para sinalizar sua presença. Também na memória a correria das crianças, latidos de cachorros soltos, sapos pulando e grandes aranhas pretas, trazidas pelas primeiras chuvas do ano. Foi, assim, desse jeitinho, a humilde e afamada calçada da minha infância e da minha vida
REVISÃO TEXTUAl:
Humberto Fontenele Lopes