fatima fontenele lopes
Rascunhos da alma
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A SALA DE ESPERA

 

Atenta, eu adentrei  no recinto, três fileiras de cadeiras azuis ornamentavam a sala, assim como longos balcões  com computadores e atenciosas atendentes. As pessoas entravam e saíam pela porta principal,  apreensivas e apressadas. Olhei para cada assento, exames em sacolas de plástico personalizadas, dentro, na maioria, resultados catastróficos e ameaçadores.  Senti um aperto no peito, o coração balançou ansioso, descompensado. Pegou a minha senha prioritária devido a idade, sentei na primeira fila da sala,  pensativa, não estava a fim de conversas, de justificativas, precisava logo era resolver ou tentar solucionar o meu problema. Pensei de como seria entrar e enfrentar as temerosas máquinas. Mudei o foco, virei e olhei para um idoso que acabava de entrar, com muita dificuldade para andar, conduzido por um rapaz e uma senhora, entendeu serem filhos, pelo carinho e o cuidado daquele instante. O painel da chamada era lento, parecia entender a aflição de cada um, atendimento vagaroso, a interação entre as secretárias acontecia naturalmente, sem pressa. P05, e lá fui eu, calma, confiante, esperançosa mesmo com o resultado positivo de CA de mama. O seu nome foi chamado na porta que se abriu na lateral, seguiu de corredor adentro curiosa pela próxima etapa. Local pequeno, com duas camas, cobertas aconchegantes, enfermeira, técnicas e alguns pacientes, cada uma com uma demanda diferente. Uma senhora sonolenta em um dos leitos, foi sedada para o exame, não conseguiu fazer o mesmo sem ajuda de uma medicação.  Sentadinha, uma menina tagarela, corajosa, sorridente, com um acesso na mão, fazia pouco caso da situação. Na sua inocência, não tinha dimensão do terror daquela máquina, o barulho enternecedor que se ouvia ao longe, já não bastava o recente diagnóstico do CA, pensei. O olhar compadecido e consolador das pessoas chegava a incomodar. A espera foi longa, viajei no tempo, mudou o sentido, era extremamente necessário para amenizar a tensão do momento. Vamos, chamou a moça, a porta larga abriu-se como um acolhedor abraço, esparramada no meio da sala estava o moderno aparelho necessário para o início do tratamento do câncer. Acomodada, embalada sobre uma esteira fria, com uma manta azul sobre o corpo, entregue-me à sorte e fiz tranquilamente as duas tomografias de pulmão e abdômen. Mas ainda tinha o mais temido, o túnel barulhento trancafiado de pensamentos confusos, preces e espera. Era o início de uma luta minha com o inimigo, por vezes temorosa, por vezes vitoriosa. Sai da clínica pensativa e confiante ao lado do carinho, do cuidado,   do amor de DEUS e da filha que acompanhava  o desenrolar  dos exames. Uma batalha, um firme propósito de aceitar e seguir em frente a misteriosa caminhada da vida.

29.06.26

 

Maria de Fátima Fontenele Lopes
Enviado por Maria de Fátima Fontenele Lopes em 01/07/2026
Alterado em 14/09/2026
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